Instituto Terroá aplica tecnologia social inovadora para avaliar maturidade da cadeia do açaí


Em conjunto com o Imaflora, foi aplicada a Escala de Maturidade para Empreendimentos e Cadeias da Sociobiodiversidade, que evidenciou resultados importantes para o fortalecimento de comunidades do Arquipélago do Bailique (AP) e seus parceiros.

E se fosse possível que comunidades avaliassem – de forma autônoma – a maturidade das cadeias de valor em que trabalham? E se pudessem mensurar o nível em que seus negócios comunitários se encontram? Perguntas como essas se tornaram realidade para comunidades do Arquipélago do Bailique (AP) que, pela primeira vez, fizeram uma avaliação completa de toda a cadeia do açaí, principal produto que tem sido trabalhado pelos moradores da região.

No dia 22 de abril, o Instituto Terroá e o Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) aplicaram junto a comunidades do Bailique a tecnologia social denominada “Escala de Maturidade para Cadeias da Sociobiodiversidade”. O objetivo dessa ferramenta é auxiliar empreendimentos comunitários a estruturarem o seu crescimento por meio de uma autoavaliação sobre o seu nível de maturidade e do planejamento de ações prioritárias para o futuro. A aplicação da Escala de Maturidade reuniu 30 participantes que puderam dialogar profundamente sobre temas cruciais para o funcionamento da cadeia do açaí, tais como: organização social e gestão territorial, manejo e conservação florestal, organização da produção, logística e transporte, industrialização, comercialização, legislação aplicável e inovação.

Participaram da atividade representantes e coordenadores de diferentes polos da região, membros da Associação das Comunidades Tradicionais do Bailique (ACTB) e da Cooperativa dos Produtores Agroextrativistas do Bailique (AmazonBai), além de alunos, professores e monitores do Centro de Vocação Tecnológica (CVT). Os facilitadores Daniel Bellíssimo e Luís Fernando Iozzi, do Instituto Terroá, e Rafael Brevigliero, do Imaflora, conduziram as atividades.

Escala de Maturidade: Como funciona?

O método utilizado pela Escala de Maturidade é altamente participativo, com estímulo constante para que os envolvidos dinamizem o ambiente e as discussões. O objetivo é o de que os participantes sintam-se livres e confortáveis para emitir suas opiniões e, assim, possam acordar, de forma coletiva, os resultados e as ações futuras para cada um dos temas trabalhados.

A Escala possui diferentes áreas temáticas para avaliação, e cada uma delas possui um conjunto de mais de 70 subtemas com três níveis diferentes de maturidade: “aprendiz”, “estruturada” e “sustentável”. A ferramenta proporciona uma avaliação robusta e, por ser aplicada de forma lúdica, participativa e dinâmica, gera interesse e comprometimento por parte dos envolvidos.

Assim, foi possível não só mensurar a maturidade de cada área de atuação, como “manejo e conservação florestal” ou “comercialização”, mas também identificar a maturidade total do empreendimento. Dessa forma, os cooperados puderam conhecer ainda mais os detalhes da Cooperativa e o seu modelo de negócios. Além disso, iniciaram a construção de um plano de ação orientado pelos pontos críticos diagnosticados pela ferramenta.

Segundo Luís Fernando Iozzi, diretor de projetos do Instituto Terroá e criador da ferramenta, “avançar na maturidade de uma organização significa não apenas profissionalizar sua gestão e construir novas oportunidades de relações éticas comerciais, mas também gerar mais renda para as comunidades envolvidas, conservar o meio ambiente, proteger seu território de pressões externas e agregar ainda mais valor aos produtos da sociobiodiversidade”.

Como foram os resultados?

Os resultados mostraram que a maturidade da cadeia do açaí no Bailique, protagonizada pela cooperativa AmazonBai, encontra-se na faixa “Sustentável”, atingindo 68% de maturidade total – um excelente resultado. Isso porque o desempenho atingido revela, por exemplo, altos índices de maturidade em áreas como “Organização social” e “Manejo florestal”.

Parte desse sucesso resulta da adoção de um Protocolo Comunitário do Bailique, um modelo de participação e decisões coletivas que, desde 2013, auxilia na gestão do território, bem como no controle e na forma de uso de recursos naturais. Outro fator que alavancou a maturidade da cadeia do açaí foi a certificação FSC. O Bailique ainda é único no mundo por possuir 94 produtores certificados de açaí, o que garante um conjunto de salvaguardas socioambientais ao território. “Ficou evidente que o Protocolo Comunitário e a Certificação FSC são ferramentas importantíssimas para o desenvolvimento territorial sustentável”, enfatizou Daniel Belíssimo, diretor Institucional do Terroá.

As principais barreiras identificadas situam-se nas áreas de “Logística e Transporte”, “Industrialização” e “Comercialização”. No entanto, destaca-se que a AmazonBai já possui um conjunto de ações para fortalecer essas áreas, e tem se organizado proativamente para a construção de um entreposto comercial e buscado recursos para a obtenção de uma agroindústria própria para o beneficiamento de seus produtos. Além disso, há parcerias avançadas para a fabricação de produtos como o açaí liofilizado (em pó). Há também, na própria comunidade, um Curso Técnico em Alimentos, do Centro de Vocação Tecnológica (CVT), que ensina os alunos sobre essa prática. Segundo Rafael Brevigliero, coordenador de certificação do Imaflora, “mesmo nos pontos de maior dificuldade já existem ações sendo desenvolvidas e que mostram aspectos de muita organização interna e de inovação socioambiental por parte da Cooperativa”.

A questão essencial evidenciada foi a importância de se ter uma agroindústria para superação de um conjunto de desafios relacionados à logística, transporte e comercialização. “É a importância de se eliminar o atravessador para atingir diretamente o mercado consumidor”, reforçou Geová Alves, presidente da ACTB e membro da AmazonBai.

Na oportunidade, também foi realizada uma oficina nas comunidades da Ponta do Curuá, que objetivou aplicar os resultados da Escala de Maturidade para levar informações aos moradores e tirar suas dúvidas sobre a cooperativa. O encontro foi bastante proveitoso, de forma que novos produtores quiseram cadastrar-se para compor a cooperativa e participar ativamente de sua construção.

O que disseram os participantes?

Para Diana Araújo, Para Diana Araújo, Presidente da Associação da Escola Família Agroextrativista do Bailique (AEFAB), “a ferramenta mostrou o quanto já avançamos, e agora é focar nos pontos mais fracos. Construir uma agroindústria é fundamental”.

Segundo Daiana Lopes, coordenadora do Grupo de Trabalho da Juventude: “vocês fizeram bem voltados para a nossa realidade e conseguiram ter uma abrangência para que trabalhássemos toda a cadeia”.

Já Miro Cordeiro Lopes, produtor agroextrativista, enfatizou que “a Escala pode ser aplicada em outras organizações ou até mesmo na família, pois mostrou como é importante fazer uma análise de várias partes e não apenas de uma”.

Por fim, Geová Alves relatou que “o maior benefício foi, além do fato de todos nós enxergarmos ‘o todo’ de um jeito que nem eu mesmo havia conseguido, foi importante pra saber que tudo o que trabalhamos até agora não foi em vão. Consegui perceber que nós caminhamos muito e nos dá esperança pra continuar”. Ele ainda mostrou-se interessado e se disse apto a replicar a Escala na próxima avaliação.

Os próximos passos

A AmazonBai definirá responsabilidades com sua equipe de gestão para avançar no plano de ação construído com a ferramenta. O Instituto Terroá e o Imaflora, como parceiros, continuarão a oferecer assessoria para o desenvolvimento da cooperativa em sua cadeia de valor.

Por conta da importância de se construir um entreposto comercial, a AmazonBai tem se esforçado em reunir recursos por meio de uma campanha de financiamento coletivo. Para saber mais e contribuir com o projeto, basta acessar este link.

A Escala de Maturidade obteve sucesso em sua primeira aplicação a uma cadeia de valor e, a partir de então, serão realizados esforços para replicá-la e adaptá-la a novas cadeias, nichos econômicos e organizações. Isso porque a ferramenta une os benefícios do olhar sistêmico, da gestão participativa e dos diálogos poderosos para a realização de diagnósticos e o planejamento estratégico de ações.

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